Sofocleto said…
Meu caro A. Franco:
Diz você que: «já investiguei o que tinha a investigar e cheguei às minhas conclusões». Não me parece que tenha investigado nada. E se o fez, ou investigou mal ou não percebeu as matérias que lhe foram surgindo à frente.
Vou estar fora três dias, mas deixo-lhe um repto: Indique-me um facto da «versão oficial» do 11 de Setembro que lhe pareça indiscutível. Estarei cá para o debatermos.
É óbvio que disponibilizaram a «transcrição». Se for ao site da CNN pode ver a repórter Kelli Arena a dramatizá-la. Mas a «gravação» não foi. E é pena!
Caro Sofocleto:
Tudo o que lhe possa dizer pode ser interpretado por si como parte dessa tal conspiração e consequente prova de que foram os americanos a orquestrar os atentados (será isso que defende?). As imagens dos terroristas, os aviões a entrar nas torres, os imensos registos do que se passou, o julgamento de Moussaoui, tudo pode ser inventado ou "fabricado" pela CIA ou pelo "complexo militar-industrial", na sua interpretação dos factos. Além disso, tudo o que lhe disser será sempre, para si, banalidades. Quando não repito os seus "factos", estou apenas a "generalizar".
Quando digo que este tipo de argumentos tem paralelo no fervor religioso, é isto que quero dizer: todos os argumentos contrários podem ser desmontados por um argumento imbatível: tudo é fabricado (tal como, no fervor religioso, tudo é "mistério", tudo é uma questão de fé, quem não concorda é um infiel preso às forças do mundo e do Diabo). Este tipo de argumentos é utilizado por todas as teorias da conspiração.
Pensemos um pouco. Quem faz parte da "conspiração": a Al-Quaeda, que aceitou e descreveu a forma como fez os atentados? Os vários governos do mundo, que têm acesso a informações que nós apenas podemos imaginar e não puseram em causa a versão americana? Todos os americanos, incluindo a família das vítimas?
Chegamos ao ponto em que a conspiração é mais cara e mais complexa do que é humanamente possível orquestrar: é preciso enganar todos os governos do mundo, fazer desaparecer umas 3000 pessoas, enganar a imprensa mundial, criar imagens, gravações, explosões, matar empregados do Pentágono, iludir famílias… A Guerra do Iraque, isso sim, foi fruto de ilusões e mentiras. Mas, repare-se, o mesmo papão que "criou" os atentados do 11 de Setembro não conseguiu plantar as armas de destruição massiça no Iraque (e seria facílimo, se pensarmos bem!). A CIA, os EUA, todo esse conjunto de poderes imensos, não são, embora pareçam, tão poderosos como julgamos e, acima de tudo, tão inteligentes e omnipotentes que enganem toda a gente o tempo todo.
Lembremo-nos ainda do exemplo da ida à lua: muitos afirmaram (e afirmam) que foi um embuste. No entanto, a criação desse embuste teria sido mais cara do que a própria ida à lua. Estamos a pisar terreno semelhante. Também há quem diga que Paul McCartney está morto desde os anos 60 e há provas irrefutáveis. Que Elvis está vivo. Que a Terra é plana… Todos os que defendem estes "factos" têm provas, todos estão convencidos, todos são dignos de respeito.
Depois, sejamos "científicos". O que é mais simples: um grupo de fundamentalistas islâmicos ataca os E.U.A. e estes aproveitam a boleia para atacar o Iraque; ou os E.U.A. atacam-se a si próprios e depois enganam o resto do mundo para poderem atacar o Iraque? Não se esqueça que o Iraque já estava na agenda de Bush antes do 11 de Setembro. Claro que o atentado ajudou à argumentação. Ou seja, o "complexo militar-industrial" beneficiou com os atentados. Mas, repare bem, também beneficiou com a II Guerra Mundial. Terá sido a II Guerra Mundial uma conspiração?
Mas não pense que não tomo em consideração todos os argumentos: sei que há quem diga que as chamadas telefónicas são impossíveis àquela altitude, que já havia preparações muito anteriores para derrubar as torres, que o estrago do Pentágono não podia ter sido feito por um avião daquele tamanho, etc., etc., etc.; depois, já li mil e uma desmontagens desses argumentos em outros tantos locais: as chamadas são perfeitamente possíveis e comuns, aquele avião teria provocado exactamente aquele tipo de estragos, etc., etc., etc.. Ou seja, estamos presos numa espiral impossível de resolver: tudo o que lhe diga pode ser mentira, invenção, embuste. Tudo o que me diga pode ser ilusão, mania da conspiração, etc.
Tentei, no meu blogue, relativizar e dizer que esta nossa discussão parte de diferentes visões, que provocam este tipo de embates. Mas não compreendeu a mão estendida e continua a achar que só digo "banalidades". É também por isso que digo que este tipo de argumentos é do tipo "fervor religioso". Se soubesse ouvir-me, perceberia que estava a tentar achar uma base comum de discussão. No entanto, comportou-se como seria de esperar: quando não concordo consigo, é porque não reconheci a óbvia verdade e estou iludido (diga o que disser) ou, melhor, sou banal, geral, não argumento, etc., etc.
Oiça, a realidade por vezes é banal e desinteressante. A mim, parece-me mais produtivo discutir argumentos que levam à Guerra no Iraque e quem sabe no Irão. Ou será que o desejo do Irão de ter armas nucleares também é invenção?
A. Franco, in comentário a "Há males que vêm por bem"