Coglioni

2006-04-14

Sei que a esquerda o acha, instintivamente, um monstro (ele é tudo o que o não gostam) e a direita o desculpa com aquele ar de "ele tem umas manias, mas lá conseguiu dar estabilidade a Itália, blá, blá, blá, e ainda por cima os jornalistas estão sempre a cair-lhe em cima". A verdade é que, realmente, os jornalistas estão sempre a cair-lhe em cima. Em Portugal, é óbvio que temos de dizer mal de Berlusconi, de Bush e, até há uns tempos, de Aznar (embora sobre este último, devido às minhas inclinações catalanófilas, um próprio torça sempre o nariz; cada qual com as suas deformações). Portanto, quando criticamos Berlusconi corremos sempre o risco de parecermos "politicamente correctos", "esquerdistas", "damas ofendidas" ou mesmo jornalistas.

No entanto, tenho de desabafar: a sua forma espatafúrdia de se agarrar ao poder está a cair no ridículo. Até pode ter razão no caso das contagens, mas este último argumento ("o que houve foi um empate, temos de fazer uma grande coligação") parece desespero. O que aconteceria se Berlusconi tivesse tido mais um voto do que Prodi, dando-lhe assim a maioria absoluta automática que a lei (feita por Berlusconi) oferece à coligação vencedora? Berlusconi pensaria sequer na grande coligação? Diria, provavelmente, e com razão: vocês são mas é "coglioni".

Espiral

2006-04-13

Sofocleto said… 

Meu caro A. Franco:

Diz você que: «já investiguei o que tinha a investigar e cheguei às minhas conclusões». Não me parece que tenha investigado nada. E se o fez, ou investigou mal ou não percebeu as matérias que lhe foram surgindo à frente.

Vou estar fora três dias, mas deixo-lhe um repto: Indique-me um facto da «versão oficial» do 11 de Setembro que lhe pareça indiscutível. Estarei cá para o debatermos.

É óbvio que disponibilizaram a «transcrição». Se for ao site da CNN pode ver a repórter Kelli Arena a dramatizá-la. Mas a «gravação» não foi. E é pena! 

Caro Sofocleto:

Tudo o que lhe possa dizer pode ser interpretado por si como parte dessa tal conspiração e consequente prova de que foram os americanos a orquestrar os atentados (será isso que defende?). As imagens dos terroristas, os aviões a entrar nas torres, os imensos registos do que se passou, o julgamento de Moussaoui, tudo pode ser inventado ou "fabricado" pela CIA ou pelo "complexo militar-industrial", na sua interpretação dos factos. Além disso, tudo o que lhe disser será sempre, para si, banalidades. Quando não repito os seus "factos", estou apenas a "generalizar".

Quando digo que este tipo de argumentos tem paralelo no fervor religioso, é isto que quero dizer: todos os argumentos contrários podem ser desmontados por um argumento imbatível: tudo é fabricado (tal como, no fervor religioso, tudo é "mistério", tudo é uma questão de fé, quem não concorda é um infiel preso às forças do mundo e do Diabo). Este tipo de argumentos é utilizado por todas as teorias da conspiração.

Pensemos um pouco. Quem faz parte da "conspiração": a Al-Quaeda, que aceitou e descreveu a forma como fez os atentados? Os vários governos do mundo, que têm acesso a informações que nós apenas podemos imaginar e não puseram em causa a versão americana? Todos os americanos, incluindo a família das vítimas?

Chegamos ao ponto em que a conspiração é mais cara e mais complexa do que é humanamente possível orquestrar: é preciso enganar todos os governos do mundo, fazer desaparecer umas 3000 pessoas, enganar a imprensa mundial, criar imagens, gravações, explosões, matar empregados do Pentágono, iludir famílias… A Guerra do Iraque, isso sim, foi fruto de ilusões e mentiras. Mas, repare-se, o mesmo papão que "criou" os atentados do 11 de Setembro não conseguiu plantar as armas de destruição massiça no Iraque (e seria facílimo, se pensarmos bem!). A CIA, os EUA, todo esse conjunto de poderes imensos, não são, embora pareçam, tão poderosos como julgamos e, acima de tudo, tão inteligentes e omnipotentes que enganem toda a gente o tempo todo.

Lembremo-nos ainda do exemplo da ida à lua: muitos afirmaram (e afirmam) que foi um embuste. No entanto, a criação desse embuste teria sido mais cara do que a própria ida à lua. Estamos a pisar terreno semelhante. Também há quem diga que Paul McCartney está morto desde os anos 60 e há provas irrefutáveis. Que Elvis está vivo. Que a Terra é plana… Todos os que defendem estes "factos" têm provas, todos estão convencidos, todos são dignos de respeito.

Depois, sejamos "científicos". O que é mais simples: um grupo de fundamentalistas islâmicos ataca os E.U.A. e estes aproveitam a boleia para atacar o Iraque; ou os E.U.A. atacam-se a si próprios e depois enganam o resto do mundo para poderem atacar o Iraque? Não se esqueça que o Iraque já estava na agenda de Bush antes do 11 de Setembro. Claro que o atentado ajudou à argumentação. Ou seja, o "complexo militar-industrial" beneficiou com os atentados. Mas, repare bem, também beneficiou com a II Guerra Mundial. Terá sido a II Guerra Mundial uma conspiração?

Mas não pense que não tomo em consideração todos os argumentos: sei que há quem diga que as chamadas telefónicas são impossíveis àquela altitude, que já havia preparações muito anteriores para derrubar as torres, que o estrago do Pentágono não podia ter sido feito por um avião daquele tamanho, etc., etc., etc.; depois, já li mil e uma desmontagens desses argumentos em outros tantos locais: as chamadas são perfeitamente possíveis e comuns, aquele avião teria provocado exactamente aquele tipo de estragos, etc., etc., etc.. Ou seja, estamos presos numa espiral impossível de resolver: tudo o que lhe diga pode ser mentira, invenção, embuste. Tudo o que me diga pode ser ilusão, mania da conspiração, etc.

Tentei, no meu blogue, relativizar e dizer que esta nossa discussão parte de diferentes visões, que provocam este tipo de embates. Mas não compreendeu a mão estendida e continua a achar que só digo "banalidades". É também por isso que digo que este tipo de argumentos é do tipo "fervor religioso". Se soubesse ouvir-me, perceberia que estava a tentar achar uma base comum de discussão. No entanto, comportou-se como seria de esperar: quando não concordo consigo, é porque não reconheci a óbvia verdade e estou iludido (diga o que disser) ou, melhor, sou banal, geral, não argumento, etc., etc.

Oiça, a realidade por vezes é banal e desinteressante. A mim, parece-me mais produtivo discutir argumentos que levam à Guerra no Iraque e quem sabe no Irão. Ou será que o desejo do Irão de ter armas nucleares também é invenção?

A. Franco, in comentário a "Há males que vêm por bem"

Ridículos

2006-04-13

Na minha recusa em considerar as teorias da conspiração, estou a ser tão obstinado aos olhos desses lúcidos teóricos da conspiração como eles o são aos meus olhos (de lúcido anti-teórico da conspiração).

Sei disso: tudo o que fazemos e dizemos é ridículo aos olhos de alguém. Os mundos são diferentes, as vidas afastadas e o encontro entre diferentes visões dá origem a pequenas explosões, pequenos risos, pequenos ridículos.

De resto, é disto que se faz a vida e a torna interessante. Ou não?

A pergunta mantém-se…

2006-04-13

Continuo interessado em saber o que pensam os casuais visitantes aqui a este desinteressante cantinho sobre para que serve a literatura.

Ando a ler Nome de Guerra de Almada Negreiros. Estou só a perder tempo? 

Teorias da conspiração

2006-04-13

Leiam isto: Um Homem das Cidades (incluindo os comentários).

As teorias da conspiração são lindas.

Uma das minhas características de desinteressante é achar quase sempre que teorias da conspiração são “lucidez auto-convencida”, digamos assim. Tal como o pessimismo contra tudo e contra todos, quem acha sempre que “eles” nos andam a enganar a todos fica com a agradável sensação que é mais esperto que o vizinho (“a mim não me enganam eles”) e, acima de tudo, que não é preciso fazer nada sobre nada, porque eles mandam, ponto final. Depois, sendo que nós, que somos espertos, já percebemos tudo, não vale a pena pensar mais.

O que acho mais interessante (dentro do estilo) é a forma como os argumentos, as cegueiras e o fervor místico se aproximam tanto de todos os fundamentalismos que conheço.

Lindos também são os comentários a um dos posts, em que alguém simplesmente não percebe quando tem à frente a transcrição do voo 93. Os teóricos da conspiração, a maior parte das vezes, nem quando são atropelados pelos factos acordam do seu estado hipnótico induzido por excesso de “lucidez”.

Mas isto somos nós, portugueses de taberna, a brincarmos às conspirações dos grandes. Se querem teorias da conspiração a sério, leiam o site que nos tenta convencer que a Terra, afinal, é plana: eles é que nos andam a enganar.

[Já agora, “voo”, em Portugal, não tem acento circunflexo. Só no Brasil.]

Posição com exemplo

2006-04-11

1. Posição

Politicamente, sou um indeciso crónico que não gosta de o ser. Não tenho certezas, mas gostava de as ter. Tenho um respeito imenso por quem tem dúvidas, mas não gosto quando alguém não procura achar respostas. Sei, acima de tudo, que as certezas, minhas e dos outros, são provisórias, mesmo quando quem as tem não o sabe. Já agora: prefiro as perguntas, mas desejo respostas.

Agora, neste momento, o que defendo é o seguinte: sou um liberal, no sentido em que defendo a liberdade do homem, mesmo para ser irresponsável; defendo ainda que, individualmente, devo ser o mais responsável possível (uma opção pessoal). A sociedade, organizada no Estado, deve tentar evitar atropelos das várias liberdades e irresponsabilidades e ainda melhorar a sociedade no estrito respeito pelos direitos individuais de cada um (incluindo o direito à irresponsabilidade).

2. Exemplo

Concretamente: defendo que os fumadores têm o direito a essa irresponsabilidade; não sou fumador; não gosto que mo proibam de o ser. Assim, se um dia o vierem a proibir, terei todo o prazer em pôr a liberdade à frente da minha responsabilidade. Porque só quero ser responsável se me deixarem ser irresponsável.

Se a irresponsabilidade implicar atropelar as opções dos outros, aí sim teremos outra conversa e é nessa base que aceito o argumento da defesa do não-fumador. Argumento que, julgo eu, está a ser extravasado para uma cruzada irresponsável, apenas politicamente correcta, defensora da saúde de quem não quer ser defendido e apenas marginalmente defensora de direitos.

Por isso, em conclusão: não se esqueçam que a liberdade não é só para os responsáveis.

Fundamentalismos

2006-04-11

Segundo César das Neves, a decadência da Europa começa na imagem que os "outros" têm de nós. Os "outros" que nos acham decadentes são, em geral, os fundamentalistas. César das Neves, simplesmente, concorda com estes últimos. Gosta da visão deles.

Adenda

Quem mais luta contra a decadência europeia é o islamismo radical e o fundamentalismo cristão. Os primeiros querem destruir a Europa, ponto final, os segundos não gostam muito de uma certa imagem (liberal e laica) da Europa.

A verdade é que a tolerância, liberalismo e a religião mais bem assumida e sem imposições é uma inovação europeia exportada para o resto do mundo. O resto do mundo divide-se entre quem acha que isto é decadência e quem gosta do conceito. Eu, por mim, gosto do conceito (i.e., a liberdade de ser ou não ser religioso ou desta ou daquela religião).

Famílias, Cidades & Ditos Banais

2006-04-9

A reportagem de ontem, na SIC, sobre o dia-a-dia duma família foi surpreendente e bem-feita. Apanhou muitos dos hábitos, dos tiques, dos lugares-comuns, das pequenas felicidades ou frustrações da classe a que sem orgulho e sem vergonha pertenço. Será uma reportagem-espelho, que por vezes faz falta. Mas houve algo que me incomodou muito: quando o pai, com uma banalidade desarmante, afirma que há algo que tem de ser mudado na sociedade, que a vida das "grandes cidades" é demasiado stressante. Este lugar-comum, embora exprima uma característica própria da nossa realidade, deve ser pensado e repensado e, depois, "agido", não simplesmente repetido à exaustão como refrão demasiado óbvio.

1. O problema, antes de mais, é individual. Conheço milhentas pessoas que gostam e se adaptam perfeitamente à vida das cidades. "As cidades libertam", diziam os camponeses da idade média. Se agora prendem algumas pessoas, o problema passa, em primeiro lugar, por essas mesmas pessoas. Estarei a ser injusto com muita gente, mas deitar as culpas para a "sociedade" abstracta é o ideal quando se quer continuar exactamente como se está, com o escape da constante queixa contra "o estado a que isto chegou".

2. Há, realmente, um problema grave nas grandes cidades. Mas esse problema não é demasiada gente em Lisboa, mas sim demasiado pouca gente em Lisboa e uma multidão nos subúrbios. Se há algo que podemos fazer enquanto sociedade, é incentivar de todas as maneiras possíveis que cada qual viva o mais perto possível do local onde trabalha: diminui-se o tempo no trânsito, diminui-se a poluição, aumenta-se o movimento na cidade em si (mais segurança, mais público para eventos culturais, menos rotina e menos stress portanto), incentiva-se o uso dos transportes públicos (dentro da cidade, os passes e bilhetes são sempre mais baratos) e ficamos todos com mais tempo para o lazer e para a família, com os filhos mais bem acompanhados, melhor educação – seria um "ciclo vantajoso". Como conseguir isto? Diminuindo os preços das casas em Lisboa (não faço ideia como); dando benefícios de todo o tipo a quem viva no mesmo concelho ou a menos de 5km donde trabalha; tentando dissipar a todo o custo essa imagem que persiste de que em Lisboa se vive mal.

3. Quem vai viver para os arredores porque a cidade "é uma confusão de carros e gente" está profundamente enganado. O local onde vivem é, provavelmente, bem mais caótico e confuso que Lisboa. Este lugar-comum, de tão enraizado, tornou-se a grande mentira da sociedade actual. Vivo em Lisboa e vivo bem, num sítio sossegado e perto de tudo o que gosto. Podia viver numa pequena aldeia e não estaria melhor.

Concorde-se ou não comigo, o temos de pegar em nós e mudar aquilo que achamos mal. A nossa vida é stressante? Mudemos de viva! Mas esclarecidos e não encarneirados na migração suicida das cidades para os subúrbios. Se é assim, mudem-se para o interior! Sempre combatem a desertificação. Agora, um à-parte: não sei se por motivos monetários não serei, mais tarde ou mais cedo, obrigado a mudar-me para fora de Lisboa; por isso, é urgente mudar os preços das casas. Comecemos por aí, por favor. Alguém me explique como.

Uma nota final: sei que aquela família é muito mais do que transpareceu. Mas ninguém sentiu ali uma falta imensa de leitura, cinema, diversão e cultura? É assim que se combate a rotina e as preguiças mentais. Leiam. Se não sabem porquê, é porque estão mesmo a precisar.

Apontamentos

2006-04-7

Isto de começar um blogue tem muito que se lhe diga e, quando o tempo é pouco e o entusiasmo demasiado efémero (eu avisei: sou desinteressante), as coisas complicam-se. Mas desistir está fora de questão. Algumas notas:

  • O Benfica, enfim, perdeu… Se FJV não embarca em consensos nacionalistas (e faz bem!), o facto é que sou um benfiquista e apesar de gostar muito da Catalunha e ter um fraquinho catalanista, ontem irritei-me com senyeres, viscas e outros que tais: nunca me senti tão castelhano.
  • O fumo vai ser cada vez mais proibido. Começo seriamente a pensar em começar a fumar.
  • E porque falámos de FJV, continuemos a ideia da recolha de incipits com a frase inicial de um romance do dito (talvez não dos melhores, mas não menos interessante):

Mesmo se excluirmos aquele pequeno pormenor dos panos que o envolviam, sujos e manchados de sangue, e que depois viriam a intrigar a polícia, ninguém sabia explicar por que razão o terceiro dos cadáveres foi encontrado às primeiras horas da manhã, de rosto virado para a lama, junto do minúsculo e desajeitado pavilhão da Quirguízia.

O dito romance (Um crime na exposição, 1997) não só antecipou a Expo um ano, como recuperou o delicioso folhetim para o DN. Sendo um policial e de quem é, são tudo razões para ler.

 [Já agora: não quero estar a instruir leitores, mas não podiam tomar as coisas com um grãozinho de sal e responder mesmo à pergunta "para que serve a literatura?" É assim tão desinteressante? Se calha é, mas por isso mesmo… Já agora, agradeço, SP!]

Matrículas

2006-04-3

Se há coisa desinteressante que me interessa são as matrículas dos carros: que emoção quando, em vez de 00-00-ZZ, passámos a ter 00-AA-00. A sério!

Para que serve a Literatura? ou Qual o interesse da dita?

2006-04-2

Convido a quem aparecer por estas paragens a que tentem responder a esta questão. Sei que a grande maioria dos que gostam de Literatura pensa que a literatura não tem de se justificar. Outros há (muito longe desses círculos) que não vêem qualquer possibilidade de haver utilidade ou interesse na Literatura.

Sei que a arte não precisa de se conformar a critérios tão mesquinhos como o da "utilidade", mas o facto é que a grande maioria de nós (os que gostam de literatura) não sabe quão grave é o desfasamento entre uma grande parte da população e o nosso mundo. Convém tentar (só para descargo de consciência) explicar. Sem choradinhos, sem superioridades, apenas porque todos nós devíamos gostar de explicar porque é importante aquilo a que damos importância, por uma e única razão: para que o mundo não se transforme cada vez mais numa conversa de surdos.

Por mim, tenho algumas respostas, que estou a preparar. Mas, como em tudo, a pergunta parece-me mais interessante.

(Àqueles que afastem este calice, enojados, porque quem pergunta algo tão básico não merece resposta, tenho a dizer: já estão a viver na terra dos surdos. Acho tão ridículo aquele que olha perplexo para um livro como aquele que acha evidente para que tudo isto serve. Nada é evidente, como já todos devíamos saber.)

Por?que

2006-04-2

Há quem julgue a frase "por que fazes isso" um erro; outros tremem quando lêem "porque fazes isso". Todos julgam encontrar na opção contrária a prova irrefutável da ignorância dos outros. Não há volta a dar: no português, como no resto, fazer bem é muito diferente de agradar a gregos e a troianos. Principalmente quando há quem julgue, como li há dias, que escrever "terramoto" é um crime de lesa-língua-pátria. Ou então que "oiça" é um erro porque ninguém diz "oivir". São pequenas certezas saloias, de quem encontrou um pequeno lastro onde ancorar a sua superioridade.

Por mim, não gosto de certezas absolutas. Nem na língua. Muito menos na língua.

Primeiras frases

2006-04-1

The story had held us, round the fire, sufficiently breathless, but except the obvious remark that it was gruesome, as, on Christmas eve in an old house, a strange tale should essentially be, I remember no comment uttered till somebody happened to say that it was the only case he had met in which such a visitation had fallen on a child.

Henry James, The Turn of the Screw

[A ideia veio daqui, mas não me restrinjo ao português.]

Socorro!

2006-04-1

Eu, que queria apenas escrever um pouco e estar sossegado, estou às 3:32 da matina a ler blogues e a esforçar-me por manter os olhos abertos. Logo eu, que gosto de coisas em pequenas doses… Quem diria.

Qual é o solução? Há por aí alguma instituição para blogodependentes? Algum processo de desmame eficaz (tendo em conta que caí no vício a uma velocidade estonteante)?

Vou esforçar-me por dormir, mas é difícil. O vício chama e temo a ressaca.

En Catañol

2006-04-1

Su mente ventrílocua se estaba desmoronando, su lenguaje contorsionista también, pero el personaje intentado se mantenía en pie y dejó de tocar un momento para responder, sin esperanza y sin resentimiento:

– Pué mirizté, en pimé ugá me'n fotu e menda yaluego de to y de toos i així finson vostè vulgui poque nozotro lo mataore catalane volem toro catalane, digo, que menda s'integra en la Gran Encisera hata onde le dejan y hago con mi jeta lo que buenamente puedo, ora con la barretina ora con la montera, o zea que a mí me guta el mestizaje, zeño, la barreja y el combinao, en fin, s'acabat l'explicació i el bròquil, echusté una moneíta, joé, no sigui tan garrapo ni tan roñica, una pezetita, cony, azí me guta, rumbozo, vaya uzté con Dió i passiu-ho bé, senyor… 

Juan Marsé, El amante bilingüe 

Contra as purezas e ilusões catalãs e espanholas (ou de todos os nacionalismos), Juan Marsé escreveu um magnífico romance. Como disse Lobo Antunes deste escritor, é um romance que nos atira ao chão, como todos os bons romances.

O último parágrafo da citação acima (que também o é do romance) é uma invenção tremenda, uma mistura de castelhano andaluz com catalão, um catañol que, ao nível da linguagem, exemplifica o desmoronamento da personagem principal. Juan, o protagonista, é um catalão que, para reconquistar a ex-mulher (uma burguesa catalã de primeira linha, uma catalanufa), se disfarça de andaluz bem kitsch (com bigode e tudo e o inevitável castelhano com sotaque), uma das perdições proibidas da catalã (que trabalha no Departamento de Normalização Linguística do governo catalão). No final, a personagem inicial desfaz-se nesta linguagem mestiça, uma imagem viva da cidade e da sociedade catalã, entalada entre duas "ideias" nacionais puras e irreais. A realidade, como sempre, é bem mais interessante. (E a literatura, como de costume, é onde a realidade se esconde.)

Espanha e Catalunha

2006-04-1

1. Espanha

Já que estamos numa de Espanhas… A Natália Correia, em 1988 (Somos Todos Hispanos), escrevia que Portugal era a encarnação de uma tendência das Espanhas – a multiplicidade – e a Espanha a encarnação da tendência oposta – a unidade.

De todos os lados se tentou puxar a brasa para a sardinha da unidade (os reis portugueses várias vezes invadiram Castela, por exemplo), mas o sentimento centrípeto nunca se conseguiu sobrepor completamente às tendências de fuga. Assim, a Espanha nunca foi a Nação castelhana e unitária que muitos sonham, abarcando toda a velha Hispânia (sonho que muitas gerações de reis portugueses e castelhanos acalentaram) nem conseguiu imitar a jacobina França na sua supressão completa de regionalismos e nacionalismos. Porquê? Por várias razões, entre as quais a existência de uma espinha chamada Portugal e, acima de tudo, o facto de espanhóis haver muitos.

A situação actual, em que nenhuma das tendências conseguiu impôr-se, é um equilíbrio (precário, é certo) que se tem mantido à custa de muitas tensões escondidas. A Nação espanhola una e indivisa é uma ilusão. Mas a balcanização da Península também o será (a interdependência entre os vários povos de Espanha é bem maior do que os nacionalistas catalães e bascos querem fazer crer).

Na realidade, a Espanha é uma "Nação de nações" (fórmula contraditória e risível, para muitos, mas bastante real). Gosto da ideia de "patriotismo constitucional" (sendo como são, aceitam viver em conjunto sob uma mesma constituição). Mas isto exige respeito e aceitação de um facto muito simples: a visão castelhana de Espanha está longe de ser a única. Tentar esconder este facto, berrando a todo o momento que a Catalunha não pode ser uma nação porque a Espanha é que o é, irá provocar mais estragos, a longo prazo, do que um estatuto que uniu catalães da esquerda à direita (com todos os defeitos que tem).

Veja-se o caso do Reino Unido: é um Estado bem mais centralista que Espanha (só em 1997 a Escócia teve o seu parlamento, com poderes limitados, comparados com os da Catalunha), mas nunca escondeu que é composto por várias nações, sem que isso impeça um patriotisto britânico a toda a prova. Um pequeno gesto simbólico, que acalma os ímpetos separatistas e permite que a Escócia exista aos olhos do mundo sem grandes alardes. A Espanha, pelo contrário, sempre que pode esconde a existência de fracturas culturais bem mais profundas, o que equivale a deitar sal para a ferida.

Isto tudo para dizer que a Espanha nunca foi uma realidade simples, em termos de identidade (ao contrário de Portugal, cuja identidade enquanto nação é simples e indiscutível, sem fracturas regionais ou entre elites e povo).

2. Catalunha

Quando falo dos catalães e do seu estatuto, não o estou a fazer por um gosto especial pelas minorias, "coitados" e oprimidos. Os catalães não são oprimidos. O catalão está longe de ser uma língua em perigo ou rural (como o são quase todas as línguas não estatais). Os catalães são um povo rico. O nacionalismo catalão maioritário (da CiU) é da burguesia de centro-direita e mesmo ex-franquista. Não estamos a falar de manias pós-modernistas de esquerdas ou separatismos juvenis. O catalanismo é algo muito mais antigo e transversal à sociedade catalã. Não estou a defendê-lo, estou apenas a dizer que o problema, em Espanha, não é entre uma Nação antiga e umas efervescências separatistas dos últimos trinta anos. Os catalães têm uma história, uma cultura e todas as ilusões e mitos nacionais (entre eles, a História reescrita no século XIX como em todos os povos europeus).

Uma nota "local": para muitos catalães, é difícil perceber como Portugal, que ao longo da História sempre andou a namoriscar Castela ou a ser namoriscado por esta (guerras fernandinas, crise de 1383, etc.), seja independente enquanto que a Catalunha, uma das primeiras nações independentes da Europa, que sempre teve as costas viradas para a Península, que nasceu da vontade de Carlos Magno, que teve um antigo Império Mediterrânico, que tem uma língua pouco ibérica e muito "galo", não o seja. Isto para simplificar muito. (Como vêem, não é preciso chegar ao País Basco para termos traumas milenares).

Seja como for, para lá destas impressões subjectivas dos catalães, o facto é que a maioria quer ser espanhola – mas duma Espanha onde falar catalão seja tão espanhol como falar castelhano. Um espécie de Canadá, por assim dizer. É um sonho tão ilusório como a independência, mas legítimo e compreensível.

Para terminar, um excerto do maior poeta catalão, Joan Maragall (1860-1911), inscrito no Modernisme, o movimento artístico catalão que deu ao mundo artistas bem conhecidos, como, na arquitectura, Gaudí. Repare-se que o poeta fala como filho de Espanha, que pretende falar com a "mãe" na sua própria língua:

Escolta, Espanya, la veu d'un fill
que et parla en llengua no castellana:
parlo en la llengua que m'ha donat
la terra aspra;
en 'questa llengua pocs tan parlat;
en l'altra, massa.

Joan Maragall, Oda a Espanya (1901)

Espanhas

2006-03-31

Realmente, era tudo mais fácil se a Espanha fosse uma só nação. Mas não é. A bem dizer: espero que não haja independências em Espanha; prefiro-a assim, tensa, mas unida; agora acusar o separatismo de todos os males históricos de Espanha… O separatismo em Espanha alimentou muitas coisas: por exemplo, a independência portuguesa (também nós já fomos separatistas). Mas a visão estreita da Espanha=Castela também não fez melhor. Para dizer a verdade, e é apenas uma opinião muito provisória, parece-me que a maior ameaça à paz e estabilidade da Península Ibérica foi a forma imprudente como o PP espanhol tratou as várias sensibilidades nacionais espanholas.

Depois de muito pensar

2006-03-31

O senhor Palomar afasta-se pela praia fora, com os nervos tão tensos como quando chegara, e ainda mais inseguro acerca de tudo.

Italo Calvino, Palomar 

Benfica

2006-03-30

A nós, soube-nos bem um empate.

É engraçado ver o mesmo acontecimento pelos olhos dos "outros". Desta vez são catalães. Sempre serve para lermos uma língua que muitos nem sabemos que existe.

Copio o artigo integralmente porque o jornal Avui, cada vez que actualiza a edição, desactualiza os links. Manias de catalães.

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Percursos desinteressantes

2006-03-29

Quando há mil coisas que me assaltam e nem sei a quantas ando, a melhor higiene mental é pegar no carro e conduzir. Conduzir, ouvir música, olhar, perder-me, fugir do trânsito porque não preciso ir por ali, conhecer ruas, a admirável rede de terras, auto-estradas, luzes e pontes que rodeiam Lisboa.

Conduzir na própria cidade às quatro da manhã; conduzir pela Marginal, sem trânsito; perder-me para os lados de Sintra; mergulhar no poço sem fundo dos subúrbio da Linha de Sintra, onde não há nomes nem limites; passar a ponte e imaginar outras vidas na Outra Banda; pôr-me na auto-estrada e só voltar no dia seguinte. Sem objectivo, sem interesse, um mar de estrada, luz e Tejo.

Quanto à música, há de tudo. Como sempre, dou desinteressante também neste campo. Ultimamente, tenho ido por Gershwin. Andei com a mania de Schumann. Tenho também ali mesmo ao pé os Divine Comedy. Mas não sou esquisito. Air; Adriana Calcanhoto; Coldplay; até os Humanos, ou o próprio David Fonseca me chegam. (Estarei a cometer algum crime ao dizer isto?) Música para o carro, claro. Não confundam a árvore com a floresta.

Fronteiras

2006-03-29

Algo realmente estranho e, para a maioria das pessoas, absolutamente desinteressante. Por mim, acho delicioso.

Se achamos estranho as quezílias intra-freguesias aqui pelo burgo, que dizer de Baarle, uma localidade dividida em aproximadamente 5000 pedaços de terreno, cada um deles atribuído a um de dois concelhos de forma aparentemente aleatória? A situação cria vários enclaves e enclaves dentro de enclaves. Para apimentar as coisas, um dos municípios está na Bélgica, o outro na Holanda. Vejam com os vossos próprios olhos (e aqui também).

Viver no sossego dos arredores

2006-03-28

O maior de todos os problemas das nossas cidades é a ilusão que persiste de que é mais calmo e mais barato viver na periferia. Lisboa, à noite, é a mais calma das cidades dos arredores. Quem vive e trabalha no mesmo concelho poupa uma catrefada de euros em transportes todos os anos e poupa, acima de tudo, a cabeça ao não passar metade do dia na estrada. Mais gente em Lisboa significaria menos trânsito, mais massa crítica para eventos, mais segurança, menos dormitórios superpovoados. No entanto, conheço tanta gente que acha que viver num local a trinta quilómetros de Lisboa é o suprassumo do sossego porque estão longe desse monstro que chamam "cidade", sem perceberem que é essa mesma opção que cria o monstro e não a cidade (Lisboa, neste caso) em si.

Já agora, leiam em Obvious, "Estrutura e Ruptura"

Casas de banho

2006-03-28

Por vezes entro nas casas de banho de cafés escondidos em qualquer ruela de Lisboa e entre sanitas, esfregonas sujas, lavatórios com riscos castanhos de ferrugem e espelhos rachados sinto que também ali estou em Lisboa. O espaço, fora de nós, é todo igual. Só nós o tornamos marcado com as nossas preferências. Nesses espaços desinteressantes tento impor o nome da cidade onde estou, indistinta no aperto de uma casa de banho pequena, numa cave qualquer.

Intolerâncias óbvias

2006-03-28

Intriga-me a forma como muitos acham óbvio aquilo que não o é. Para uns, a globalização é obviamente má, para outros é obviamente a solução. Outros ainda acham que o meio-termo (seja ele qual for) é a solução óbvia. Uns julgam a religião a origem de todos os males, outros julgam-na a solução para todos os problemas. Para uns, o discurso económico é uma praga que ameaça asfixiar a sociedade. Para outros, o discurso das humanidades é um cancro antigo de inutilidade que tarda em desaparecer. Para outros ainda, são ambos discursos elitistas, que não vêem o que é óbvio. Não é difícil perceber onde quero chegar. 

Intriga-me também que pessoas com um nível de informação semelhante tenham tão diferentes concepções do mundo e das coisas mais imediatas que nos rodeiam (não basta não concordarmos para onde queremos ir, nem sequer chegamos a um mínimo acordo sobre onde estamos). Obviamente, a informação (os dados estatísticos, digamos assim) não chega para chegar a acordo: temos uma camada imensa de preconceitos, preguiças, diferentes percursos, inclinações, leituras, etc. que nos fazem divergir. Sem essa camada, seríamos talvez mais objectivos, mas não teríamos interesse nenhum.

Mas o que mais me intriga não são estes "factos", mas antes a intolerância com que todos nos armamos contra quem não percebe o que é por demais óbvio para nós. Qualquer divergência em relação à nossa opinião, e lançamos anátemas de "desonestidade", "estupidez", "esquerdismo", "fascismo", "arrogância" e um não mais acabar de desqualificações. 

Não que sirva de muito, mas acreditem que é saborosíssimo sair da linguagem com que nos cosemos e descobrir o que os outros (os "estúpidos" que não vêem o óbvio) dizem sobre o mundo. Conheço pessoas que argumentam em circuito fechado à direita e outros à esquerda e todos o fazem com gosto, inteligência e coragem e, quando se juntam, descambam num mar de insultos, uma conversa de surdos sem sentido nem interesse.

Claro que há desonestidades, estupidezes, arrogâncias, exageros, cegueiras óbvias, autoritarismos. É preciso lançamo-nos no mundo preparados para lutar e gritar e bater o pé pelo que acreditamos. Mas achar que o mundo se resume à nossa visão dele é uma incrível e óbvia castração.

Até porque, provavelmente, estamos todos errados ou nenhum está. 

Jantar de amigos

2006-03-28

Hoje, no jantar de amigos a que fui, olhei como se visse de fora e todos fomos ridículos. Um acha-se escritor (e é bom escritor). Outro sabe que anda tudo enganado e que isto assim não vai a lado nenhum (são tão sérias e sabidas, sempre tão sabidas, as conversas dos homens). Algumas amigas ainda se comportam como miúdas e fazem gala nisso e outras fingem-se muito adultas e ainda fazem mais gala nisso.Por fora, como tentei ver, foi um jantar igual a todos de um grupo igual aos outros. Ridículo, por tanto, típico, portanto. Mas claro que, entre nós, os ridículos são pequenas ironias, pequenos pecados, aos quais sorrimos com ternura. Todos nós inconscientemente gostamos dos nossos ridículos e todos nos rimos por dentro do que dizemos e fazemos. E brincamos. E adoramo-nos.

Nem todos, obviamente, têm noção do inevitável ridículo em que todos caímos. Mas esses são só ligeiramente mais ridículos.

Procrastinação

2006-03-28

Amanhã, vou atacar coisas realmente chatas, sobre as quais não sei o suficiente e não tenho certezas nenhumas. Um blogue desinteressante tinha de ser, obviamente, pouco original.

  • O corpo em Fernando Savater e Bento XVI;
  • Ser ou não ser liberal.

O mais o tempo o dirá.

Óbvio

2006-03-28

Todos nós não sabemos coisas que são completamente óbvias para todos os outros.

Um amigo meu inteligentíssimo, que adora Lisboa, conhece as ruas, os cheiros, os livros, as palavras, as vistas, os bairros, os preconceitos de toda a cidade, olhou para uma das bandeiras alfacinhas que por aí andam espalhadas e perguntou-me o que era aquilo. Nunca tinha visto semelhante coisa.

Eu, que adoro literatura espanhola, até há bem pouco tempo nunca ouvira falar de Valle-Inclán.

E que dizer de Marvin Gaye, um perfeito desconhecido meu até há umas semanas?

Há quem não saiba, por exemplo, o que é um blogue, e até pode andar na net três horas por dia. Há quem não saiba que
em Espanha se falam várias línguas. Há quem não saiba que um romance pode não ser (e a maior parte das vezes não é) uma história de amor.

Por aí fora. Este é um facto óbvio da vida. Mas há tanta gente que não o sabe e continua a usar estas falhas necessárias para desqualificar tudo e todos, racionalizando a sua arrogância através destes pequenos defeitos e desbastando o mundo até só restar um círculo muito restrito de "inteligentes", cujas óbvias ignorâncias são mais difíceis de descortinar.

Claro que esses sábios nunca se apercebem que também eles não sabem coisas que são óbvias para todos os restantes. Porque só os arrogantes ignoram completamente o que não sabem.

Ridículo

2006-03-28

Somos todos ridículos (e não falo só das cartas de amor).

Há ridículos de esquerda com as suas superioridades morais e ridículos de direita com as suas certezas descontraidas – ou vice-versa. Há o ridículo da arrogância, o ridículo da humildade, o ridículo da frustração, o ridículo de acharmos que os outros é que são arrogantes.

A lucidez com que alguns escrevem e sabem o mundo faz-me rir. A forma ponderada e correcta de viver faz-me rir. O descontrolo de alguns, atirado ao mundo como uma acusação, faz-me rir. Vejo-me em frente ao computador a começar a mais ridícula das formas de escrever (blogues) e só me posso rir.

Mas o meu riso não é de escárnio mas de sincero gosto. Vejo todos estes ridículos e estas formas de se tentar encaixar numa forma de viver não ridícula e adoro isto.

Quando percebo que todos, mais cedo ou mais tarde, somos ridículos, sinto um alívio. Sou chato e ridículo. Mas não há nada que não seja, ainda que ligeiramente, ridículo. (Algo haverá, claro está, mas não é agora o local.)

Amigos desconhecidos

2006-03-27

Todos temos preguiça em pensar. Julgamos conhecer os nossos amigos, mas ficamo-nos pelo que parece, pelo que uma determinado dia nos disse de alguém, pelo que nos é mais apetecível ou mais fácil pensar a cada momento de cada um, de forma a mantermo-nos sempre no centro do círculo, entre os tímidos, os faladores, os isto e aquilo, os de esquerda, os de direita, os ingénuos, os lúcidis, a rodar à volta de um "eu" incorruptível e inclassificável, no meio de gente claramente definível em duas ou três palavras.

Os melhores amigos são aqueles que temos dificuldade em descrever. Conhecemo-los demasiado bem para isso. Aqueles que ainda nos aparecem como listas de características ainda são, no fundo, perfeitos desconhecidos.

Além disso, como todos sabemos, não podemos dizer de um grande amigo que "gostamos dele". Está muito para lá do gostar ou não gostar. Um verdadeiro amigo é aquele que, às vezes, nos deixa a contar até dez para não gritar. Ou pior. 

Itinerários

2006-03-27

Tenho um gosto estúpido pelo que é desinteressante. As placas da estrada, por exemplo. As formas das letras, as cores, a forma de abreviar as palavras, o tamanho do nome das terras, as setas que, de tanto indicarem caminhos e locais não dizem nada. Depois, há as setas que indicam os locais que eu já sei onde estão. Aquelas que me dizem como ir para os sítios onde sempre vou. As minhas setas, os nomes das minhas terras. Aquelas de que realmente gosto: as únicas que me são inúteis.

E quais são as minhas terras? As dos meus amigos, dos meus pais, da minha namorada, da família, de alguns sítios secretos e de algumas recordações.